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Corpos no rio Ganges

Quarta, 08 Agosto 2012 13:22 Escrito por 
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Recebi a poucos dias em minha caixa postal virtual imagens que me interessaram muito. Não costumo abrir certos tipos de email, não acredito em correntes, pouco me interesso por mensagens prontas com fotografias fofinhas. Porém, o assunto me chamou a atenção. No lugar reservado para a descrição do conteúdo, estava escrito: Corpos no rio Ganges.

Confesso sem pestanejar que se fosse há alguns anos eu jamais abriria um email com este teor, pois não possuía a mínima curiosidade sobre questões referentes à morte, deixando passar de largo qualquer coisa que lembrasse ela. Porém um milagre aconteceu comigo, gerando uma renovada imagem sobre todas as coisas.

Eu tinha verdadeiro pavor da velhice, fazendo de conta que a morte era um encargo criado para todos, menos para mim. Vivia enraizado numa materialidade ilusória, calcada numa vaidade extrema, um cuidado exagerado com a beleza física, onde envelhecer, ter cabelos brancos, não passava de uma remota possibilidade.

Mas de onde vinha toda a minha ansiedade? Por que sendo jovem e bonito, eu possuía um vazio interior incapaz de ser removido pela busca da eterna juventude? Faltava alguma coisa em minha vida, mas eu não conseguia saber o que. Deste modo tentava preencher-me buscando desesperadamente adiar a passagem pela velhice e o encontro com a morte, duas coisas simplesmente impossíveis de se modificar. Eu não sabia, mas fugir destas realidades era o que produzia em mim um falta imensa.

Então, uma doença crônica se abateu sobre mim, mudando o rumo de todos os meus pensamentos. Deixei de ser o jovem atlético, para me tornar um monte de ossos se olhando no espelho como quem contempla o próprio túmulo. Senti o bafo mortífero no meu pescoço várias vezes e descobri que na verdade a morte está sempre a espreita, a um passo de todos nós. Foi aí que eu realmente comecei a viver.  

De todos os paradoxos propostos pela espiritualidade, aceitar a finitude, a impermanência dos corpos, é a meu ver o mais fascinante. Quando se aceita a morte pacificamente, mergulha-se de cabeça nas águas mornas de uma vida à beira-mar.

Assim aconteceu comigo! Estive tão próximo do abismo e precisei recriar-me, gerar um caminho novo, pois a partir dali, morrer não era mais um grande mistério e envelhecer deixou de ser algo horripilante – eu vi meu corpo se acabar diante de mim, vi minhas feições ficarem feias, percebi o quanto minha vida era sem propósito, cuidando apenas de uma imagem passageira.

Recuperei-me da crise com uma alegria imensa. Possivelmente teria desaparecido se houvesse levado a situação de modo trágico. Mas a felicidade reluzia em meus olhos. Eu havia entendido o milagre da vida, eu estava ganhando outra chance para viver!

Hoje, do alto dos meus trinta e seis anos, de cabelos levemente grisalhos e barba ficando branca, os corpos no Ganges pouco me impressionam, trazendo na realidade uma imagem de beleza incompreendida por tantos.

O email com estas fotografias veio de alguma pessoa evangélica presente na minha lista de amigos, “alertando” ao mundo que aquele povo praticante de tal ato imundo – no caso, jogar corpos num rio – necessita da salvação advinda de Jesus Cristo, precisando ser libertos da idolatria, falando deste acontecimento com um horror capaz de ser facilmente notado em suas palavras.

Minha análise sobre o episódio vai muito além de questões dogmáticas ou mesmo sanitárias. Não são elas que importam neste escrito, mas sim o pavor da morte presente no relato desta boa alma preocupada com a salvação da humanidade. Deve ser difícil para um número imenso de pessoas encarar a morte como os indianos encaram, com corpos em decomposição passando ao lado de suas embarcações ou desnudando seus esqueletos às margens ensolaradas, enquanto são comidos por vermes e cães.   

Sejam evangélicos aguardando a ascensão, ou homens e mulheres vaidosos esculpindo corpos obcecadamente nas academias e clínicas para exibi-los pelo planeta, enxergar a morte de modo tão cru, é um incomodo quase insuportável.

Eu continuo me cuidando, continuo me achando um cara legal, porém não espero mais nada do corpo, nem aguardo a salvação dele por uma ascensão que eu nem sei se virá. Apenas vivo, vivo inteiro, um dia de cada vez, sem me preocupar com a ruga que aparece, os fios brancos, a dor no ciático revelando que o aparelho aqui ainda dá para o gasto, mas está se deteriorando.

Transformei-me num homem feliz com a vida, por que aceitei placidamente a proximidade da morte. Então entendi que a razão de estar aqui neste mundo é simplesmente viver e viver feliz!

Assim, encontro beleza nos corpos boiando pelo Ganges a fora, pois significa que ali, um dia houve vida!

 

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